sexta-feira, 14 de maio de 2010
Sonetos de Outono por Marleudo Costa
Escrito por Renata Santiago. Estudante de Moda, ótima estilista e pensadora. Adora desmembrar sentidos e identidades por trás das complexas entrelinhas da vida. No twitter é @modaparamim|

“Que chegue, trazendo brisas frias
Derrubando folhas, tristezas e solidão
Que leve, todo exagero
Que reste, luz fraca, brisas e lembranças
Suave, ameno e confortador
Triste, mas aceitável
Nada de paixões ardentes
Nada de dores profundas
Só a suavidade de ambas, calmaria sem explosão
Suave torpor que confunde mas não se perde
Leveza de todo o sentir
Nem tão calmo, nem tão breve
Outono
Estação e Sentimentos”
(Autor desconhecido)

Gente, saiu a nova coleção de Marleudo Costa, integrante forte do cartel de talentos da UFC. Sempre mergulhando em universos lúdicos e ricos em signficação, Marleudo há tempos lança novos olhares no mercado de "lingerie-conceito".
Confira o Release:
A coleção Sonetos de Outono faz uma viagem ao imaginário de um ser humano e seus sentimentos, e retrata os mesmos em suas mais diversas formas de expressão, além de interpretar a beleza da complexidade dos contrastes entre os mesmos. Nela, assim como acontece com todo seu humano, há espaço para a análise da tristeza, da melancolia e da saudade de um amor perdido, por exemplo.
Na cartela de cores, predominância do preto, que é balanceado com a presença do branco, representando a leveza e o renascimento de alguém que está disposto a recomeçar sua vida, a intensidade do vermelho, e a neutralidade dos tons de rosa-seco e verde-água, fazendo alusão à calmaria que se hospeda após uma tempestade de sentimentos, arruinados. Para dar a pincelada final neste universo que ora aparece confuso, ora é tão claro para quem o interpreta, estampas com motivo floral, coordenadas com rendas e microfibras lisas. Aposta-se ainda em calcinhas e soutièns feitos com estampas de grafismos, fazendo uma perfeita alusão ao poema que serviu como fonte de inspiração.

Na modelagem, a fluidez se confunde com a austeridade, e se reflete em camisolas soltas, dividindo espaço com a cintura marcada em corsets, espartilhos e ligas. Tudo coordenado na medida certa, como diz o poema, “Nem tão calmo, nem tão breve”. Nos tecidos, o uso de microfibra, tule, renda jacquar, chiffon e tafetá garante um equilíbrio perfeito na dualidade que se deseja retratar com o conceito da coleção.

Poder, muito poder! Adorei o conceito e as peças preview.. Vamos ficar de olho em Marleudo, pois ele sempre nos apronta boas peças!!!!!!
quarta-feira, 12 de maio de 2010
E Deus criou Chanel...
Escrito por Renata Santiago. Estudante de Moda, ótima estilista e pensadora. Adora desmembrar sentidos e identidades por trás das complexas entrelinhas da vida. No twitter é @modaparamim|

Gente, qual é o segredo Chanel?

A marca, o espiríto, o estilo, as cores, as formas ou as celebs que alimentam o show?

Ou será tudo isso junto?! Enquanto pensamos, nada melhor do que dar uma olhada em preciosidades quentinhas lançadas em Saint-Tropez!

O desfile de ontem (Chanel´s carefree cruise collection) foi uma coisa de louco mesmo.. na minha opinião, um dos mais lindos de todos os tempos! Morro de inveja de todas as mulheres que podem comprar agorinha o seu modelo Chanel preferido, mas um dia eu chego lá!

Fico boba a cada nova coleção! Coco deve estar orgulhosíssima com o fato de a sua marca, estação após estação, firmar mais ainda a sua identidade de toda poderosa soberana. O conceito permanece lá intacto, mas o style sempre percorre o rumo da história! Fantástico.

Com o cheiro forte da BB, Brigitte Bardot, todos os tipos de mulher Chanel estavam lá! Minimal, chic, divertida, casual, clássica.. e a sensual, é claro, venceu!














Pôr do sol, pés descalços, drinks e relax. Um clima meio boho, meio revival, meio 90´s. Na verdade, uma leitura mais do que parfait do que esperamos da moda hoje em dia: diversidade, movimento, charme, refrescância e é claro, muito poder!
Karl Lagerfeld entende a psiquê do desejo feminino. Ah, se entende!
Chanel Dinner no Le Café
Escrito por Renata Santiago. Estudante de Moda, ótima estilista e pensadora. Adora desmembrar sentidos e identidades por trás das complexas entrelinhas da vida. No twitter é @modaparamim|

(Baptiste Giabiconi, Karl Lagerfeld, Sébastien Jondeau e Vanessa Paradis)
Saint-Tropez tem sido o palco das festinhas e estréias luxuosas para os feitos da legendária maison Chanel.
Lançando seu novo curta-metragem, Remmember Now, Karl Lagerfeld reuniu seus preferidos para um jantar animado, com direito a jogos, brincadeiras e muitas musas vestindo preciosidades Chanel.


Elisa Sednaoui, Leigh Lezark, Heidi Mount e Pascal Greggory estrelam o filme que fala da "ode" a folia praticada 24 hrs por dia pelos ricos e famosos no parque costeiro onde foi essa festinha de lançamento promovida por Karl.

Elisa Sednaoui

Diane Kruger

Caroline Sieber
Eita, vida boa!
terça-feira, 11 de maio de 2010
Inverno 2010 H&M
Já fiz um post de uma outra vez com umas peças da H&M e estou voltando a mostrar a marca aqui no Morangos. Simplesmente porque a coleção inverno 2010 masculina está de cair queixo e tudo mais que seja passível da gravidade arrastar para baixo!
Confiram o lookbook... e depois a gente conversa.
Pois então, voltando ao assunto... peças sóbrias mas não menos glamourosas.
E tenho absoluta certeza que toda mulher sonha encontar um homem na sua frente bem vestido desse jeito. Ah, como sonha!
E não é difícil não, hein, rapazes. Basta um pouquinho de conhecimento em moda e bom senso. Apesar do estilo europeizado (oremos para eu não estar criando um neologismo) as peças caem muito bem no clima sulista brasileiro. Infelizmente ainda não podemos desfrutar desses maravilhosos looks aqui no Ceará, a não ser nas serras.
Enfim, cores sóbrias, neutras e escuras; acessórios poderosos! Lenços, cachecóis, cintos, coturno, que deu um up no visual quebrando um pouco a seriedade. Muito volume e sobreposição. (Gravem isso!)
Uma coleção belíssima que meus olhos agradecem!
Até a próxima!
sábado, 8 de maio de 2010
Pronta para brilhar!
Escrito por Paula Peternella. Estudante de Moda e Direito. Baiana residente em Salvador, é a única Menina do Morango fora de Fortaleza. Ama a Shakira e roupas e cor "azul bic". No twitter é @paulapeternella|
O brilho é tendência certa no inverno 2010!
Característica forte dos anos 80, década que influencia até hoje a moda, o brilho do inverno vem forte nos tecidos de lurex e nos paêtes! São diversas as cores, em especial o preto, dourado, prata e metalizados! É muito luxo!
Para as mais discretas, o legal é apostar nos detalhes: um super acessório brilhoso para foco da produção é um charme e super glamouroso!
Característica forte dos anos 80, década que influencia até hoje a moda, o brilho do inverno vem forte nos tecidos de lurex e nos paêtes! São diversas as cores, em especial o preto, dourado, prata e metalizados! É muito luxo!
Para as mais discretas, o legal é apostar nos detalhes: um super acessório brilhoso para foco da produção é um charme e super glamouroso!
sexta-feira, 7 de maio de 2010
O sintoma
Escrito por Renata Santiago. Estudante de Moda, ótima estilista e pensadora. Adora desmembrar sentidos e identidades por trás das complexas entrelinhas da vida. No twitter é @modaparamim|

Concluindo o caso:
A COELHA ou A roupa como marca materna
A roupa assume aqui dois papéis distintos: oor um lado, participa da determinação da identidade sexual, por outro, permite o reconhecimento da criança pelos pais. Sob esse aspecto, a história da coelha que não reconhece mais o filhote é um eco inquietante do caso da mãe que não reconhece sua filha.
(...)
Mas, para além da materialidade da roupa, é o que ela traduz dos desejos parentais que a criança percebe. Ela é vestida passivamente pelos pais durante os primeiros anos de sua vida. Suas roupas são uma oportunidade para eles exprimirem seus desejos e projeções a seu respeito, em particular no que se refere à sua identidade sexual. Quantos garotinhos com longos cabelos cacheados e blusinhas rendadas refletiram, aos olhos fascinados de seus pais, a menininha que poderiam ter sido? Quantas garotinhas se conformaram à imagem do "menino que deu errado"? Mas errado para quem? Para a mãe, cujo desejo volta, à revelia dela, para se inscrever no corpo da criança? Para o pai, que deseja em seu foro íntimo o prolongamento da linhagem masculina?
(...)
Em certa medida, a roupa oferece aos pais a ilusão de descobrir o filho ideal que eles têm em mente. Esse travestimento satisfaz parcialmente o pai, de uma forma inconsciente, a verdadeira identidade de sua filha. Em geral, o adulto consegue estabelecer uma distância entre a satisfação de seu desejo e a realidade - mas e quanto à criança? Esta é, desde o início da vida, joguete de uma encruzilhada de desejos e projeções identificatória de seus pais. A roupa desempenha um papel, pois pode revelar em parte essas tramas inconscientes que se passam ao redor da criança.
(...)
Assim, a suntuosidade de um traje exprime para ela o orgulho de seus pais, um ideal de êxito, como se ela devesse dar conta de promessas que eles próprios talvez não tenham sido capazes de cumprir.
A orientação sexual de sua roupa a informa sobre o sexo do filho que seu pai ou sua mão desejavam. Essas diversas informações são trocadas inconscientemente, mas pouco a pouco vão constituindo em torno da criança um tecido de desejos parentais, de modelos identificatórios nos quais ela terá de se apoiar para construir suas próprias referências.
(...)
Porém, em certos casos patológicos, quanto a auto-confiança da criança é muito frágil, ou a pressão do desejo exterior muito forte e pouco diversificada, o leque de possibilidades da criança se reduz, podendo acarretar graves distúrbios identitários.
(...)
Mãe e criança formam então um par que as isola do resto do mundo.
A intervenção de um terceiro termo nesse universo, por exemplo através da escolha da roupa, pode verificar-se problemática: se o laço entre a mãe e a criança é frágile depende de suportes externos como a roupa ou os cuidados, a mãe corre o risco de se sentir confiscada e, até mesmo, em um caso extremo, de não mais reconhecer seu filho como tal.
(...)
A roupa é então a marca da mãe sobre a criança, o signo de seu usufruto. Qualquer afastamento é vivido como impossível, perigoso, na relação louca com sua filha.
(...)
O que se dá nesse curto instante é caso de vida ou morte: será que ela vai reconhecer sua filhinha ou rejeitá-la, destinando-a a uma morte simbólica como o coelhinho da história?
(...)
Na maioria das vezes, o pai intervém de uma forma um pouco diferente entre a mãe e a criança. Ele se opõe à relação exclusiva delas ao designar a mãe como sua companhia no âmago do casal parental. Ao desvelar a mulher por trás da mãe, ele a põe fora do alcance da criança, introduzindo a distância benéfica da triangulação da relação. Ele marca o interdito e envolve a criança em uma relação estruturante com a lei.
Talvez esse homem seja feito à imagem dos pais modernos, pouco propensos, dizem, a proibir e frustrar os filhos, com medo de perder seu amor - perda que abalaria seu frágil narcisismo - , e concorrendo então com a mãe nos cuidados dispensados à criança.
Demais, não?
fonte: Dispa-me! O que nossa roupa diz sober nós
Catherine Joubert & Sarah Stern
Vamos pensar a psicanálise
Escrito por Renata Santiago. Estudante de Moda, ótima estilista e pensadora. Adora desmembrar sentidos e identidades por trás das complexas entrelinhas da vida. No twitter é @modaparamim|
Surpreendam-se! Boa leitura!

A COELHA ou A roupa como marca materna
Eu não gostava de bonecas. Elas me incomodavam com seu olhar calmo e aspecto de crianças-modelo. Quando descobria uma entre meus presentes, repelia imediatamente a intrusa para longe a fim de me concentrar em brinquedos mais interessantes: uma cabana de índio, um kart de pedais. Meu avô parecia quase tão interessado quanto eu pela máquina, ajustando com cuidado o comprimento dos pedais para as minhas perninhas de criança.
Eu tolerava apenas os bichos de pelúcia para acompanhar minhas noites, sem preferir na verdade nenhum em especial: o lugar já era ocupado por uma coberta suave e amarrotada que eu não deixava que lavassem.
Quanto às bonecas, iam direto para a caixa de brinquedos. Eu só tirava dali em último caso, nas longas tardes de verão. O que elas tinham de mais interessante eram os pequenos tufos dos cabelos, no interior do crânio, depois de arrancada a cabeça. Eu me perguntava, perplexa, se acontecia o mesmo dentro das outras cabeças, das pessoas próximas a mim, que constituíam meu universo familiar. Minha irmão, por exemplo, seis anos mais velha, tinha cabelos compridos que eu invejava, ao passo que eu continuava a usar cabelos curtos como um garotinho. Talvez, no interior do crânio dela, os tufos não fossem maiores que os meus, mas eu não tinha como verificar.
Na época, era como seu tivesse me resignado a uma aparência de "menino que deu errado" - que havia sido inaugurada com grande pompa num sábado de outono.
É uma das minhas primeiras recordações: eu ainda não ia à escola, e meu pai costumava ficar comigo nas manhãs de sábado, na ausência da minha mãe, que ía trabalhar.
Em geral ficávamos tranquilamente em casa, um em frente ao outro, concentrados em nossas respectivas atividades. Eu o vigiava com o canto dos olhos, não plenamente sossegada com aquela presença familiar pouco habital, a preocupação às vezes dando lugar a certa exaltação, primícias de uma aventura que estaria por vir. A aventura começou de repente, no dia em que ele decidiu, sem aviso prévio, comprar algumas roupas para "fazer uma surpresa para a mamãe". Saímos eu e ele.
Não me lembro da loja chique de roupas para criañças aonde fomos naquele dia. Em compensação, guardo na memória a cena da nossa volta para casa.
Mamãe nos espiava pela janela, preocupada com a nossa ausência. Ao entrar pelo quintal, papai apontou para a janela para mim e agitou os braços. Ela nos olhava, incrédula, sem responder aos nossos sinais, e alguma coisa em sua atitude impressionou minha alma de criança.
Alguma coisa nova, nunca vista. Ela, que em geral corria para nos receber de braços abertos, ficou subitamente imóvel, congelada, sem reação. Continuava a nos fitar, suspensa, na expectativa, e todo o Universo junto com ela.. Lá embaixo, sob o fogo gelado daquele olhar, cambaleei à beira do abismo, hesitante, aterrorizada, contida a duras penas pela mão de meu pai.
De repente eu me sentia inexistente, perplexa com sua ausência de movimentos, com sua sideração inesperada, que me remetia à minha ausência em seu olhar e no mundo. Mas o rosto ela, apesar de tão familiar, permanecia fechado, sem a receptividade de seu sorriso.
Esse curtíssimo instante durou uma eternidade. Quando finalmente me reconheceu, vestida com minhas roupas novas, seu grito e alegria mal conseguiu amenizar o meu pavor. O gorrinho de veludo, combinando com o sobretudo e a calça comprida cinzenta, transformava sua querida filha em uma estranha.
O desfecho foi ainda mais espetacular. Ela correu pela escada ao nosso encontro, inundando o espaço sonoro com gritos e palavras que arrebentavam sobre mim como uma onda de afagos e carinhos, apalpadelas, colocando e tirando o gorrinho. "Um garotinho perfeito"! Meu pai parecia satisfeito, eu estava horrorizada.
Alguns anos mais tarde, senti um interesse muito particular pelos coelhos na fazenda da minha tia. Além do meu fascínio por aquele comportamento sexual frenético, tinha grande curiosidade por outra singularidade deles. Haviam-me proibido formalmente de tocar nos filhotes antes que tivessem atingido um determinado tamanho; mas mesmo assim fiz um teste, e observei que, quando retirados da coelheira e matidos por alguns instantes nas mãos, eles viviam, ao voltarem para a gaiola, uma cruel experiência: a mãe aproximava-se deles, desconfiada, e alguns instantes depois eles boiavam, inertes, em sua tigela de água.
-------------------
Continua amanhã. Com toda a moral da história. Aguardem!
Boa noite, beijos, fui!
fonte: Dispa-me! O que nossa roupa diz sober nós
Catherine Joubert & Sarah Stern

A COELHA ou A roupa como marca materna
Eu não gostava de bonecas. Elas me incomodavam com seu olhar calmo e aspecto de crianças-modelo. Quando descobria uma entre meus presentes, repelia imediatamente a intrusa para longe a fim de me concentrar em brinquedos mais interessantes: uma cabana de índio, um kart de pedais. Meu avô parecia quase tão interessado quanto eu pela máquina, ajustando com cuidado o comprimento dos pedais para as minhas perninhas de criança.
Eu tolerava apenas os bichos de pelúcia para acompanhar minhas noites, sem preferir na verdade nenhum em especial: o lugar já era ocupado por uma coberta suave e amarrotada que eu não deixava que lavassem.
Quanto às bonecas, iam direto para a caixa de brinquedos. Eu só tirava dali em último caso, nas longas tardes de verão. O que elas tinham de mais interessante eram os pequenos tufos dos cabelos, no interior do crânio, depois de arrancada a cabeça. Eu me perguntava, perplexa, se acontecia o mesmo dentro das outras cabeças, das pessoas próximas a mim, que constituíam meu universo familiar. Minha irmão, por exemplo, seis anos mais velha, tinha cabelos compridos que eu invejava, ao passo que eu continuava a usar cabelos curtos como um garotinho. Talvez, no interior do crânio dela, os tufos não fossem maiores que os meus, mas eu não tinha como verificar.
Na época, era como seu tivesse me resignado a uma aparência de "menino que deu errado" - que havia sido inaugurada com grande pompa num sábado de outono.
É uma das minhas primeiras recordações: eu ainda não ia à escola, e meu pai costumava ficar comigo nas manhãs de sábado, na ausência da minha mãe, que ía trabalhar.
Em geral ficávamos tranquilamente em casa, um em frente ao outro, concentrados em nossas respectivas atividades. Eu o vigiava com o canto dos olhos, não plenamente sossegada com aquela presença familiar pouco habital, a preocupação às vezes dando lugar a certa exaltação, primícias de uma aventura que estaria por vir. A aventura começou de repente, no dia em que ele decidiu, sem aviso prévio, comprar algumas roupas para "fazer uma surpresa para a mamãe". Saímos eu e ele.
Não me lembro da loja chique de roupas para criañças aonde fomos naquele dia. Em compensação, guardo na memória a cena da nossa volta para casa.
Mamãe nos espiava pela janela, preocupada com a nossa ausência. Ao entrar pelo quintal, papai apontou para a janela para mim e agitou os braços. Ela nos olhava, incrédula, sem responder aos nossos sinais, e alguma coisa em sua atitude impressionou minha alma de criança.
Alguma coisa nova, nunca vista. Ela, que em geral corria para nos receber de braços abertos, ficou subitamente imóvel, congelada, sem reação. Continuava a nos fitar, suspensa, na expectativa, e todo o Universo junto com ela.. Lá embaixo, sob o fogo gelado daquele olhar, cambaleei à beira do abismo, hesitante, aterrorizada, contida a duras penas pela mão de meu pai.
De repente eu me sentia inexistente, perplexa com sua ausência de movimentos, com sua sideração inesperada, que me remetia à minha ausência em seu olhar e no mundo. Mas o rosto ela, apesar de tão familiar, permanecia fechado, sem a receptividade de seu sorriso.
Esse curtíssimo instante durou uma eternidade. Quando finalmente me reconheceu, vestida com minhas roupas novas, seu grito e alegria mal conseguiu amenizar o meu pavor. O gorrinho de veludo, combinando com o sobretudo e a calça comprida cinzenta, transformava sua querida filha em uma estranha.
O desfecho foi ainda mais espetacular. Ela correu pela escada ao nosso encontro, inundando o espaço sonoro com gritos e palavras que arrebentavam sobre mim como uma onda de afagos e carinhos, apalpadelas, colocando e tirando o gorrinho. "Um garotinho perfeito"! Meu pai parecia satisfeito, eu estava horrorizada.
Alguns anos mais tarde, senti um interesse muito particular pelos coelhos na fazenda da minha tia. Além do meu fascínio por aquele comportamento sexual frenético, tinha grande curiosidade por outra singularidade deles. Haviam-me proibido formalmente de tocar nos filhotes antes que tivessem atingido um determinado tamanho; mas mesmo assim fiz um teste, e observei que, quando retirados da coelheira e matidos por alguns instantes nas mãos, eles viviam, ao voltarem para a gaiola, uma cruel experiência: a mãe aproximava-se deles, desconfiada, e alguns instantes depois eles boiavam, inertes, em sua tigela de água.
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Continua amanhã. Com toda a moral da história. Aguardem!
Boa noite, beijos, fui!
fonte: Dispa-me! O que nossa roupa diz sober nós
Catherine Joubert & Sarah Stern
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